Olá, queridas(os) amigas(os) e micro família:
Cá estou em mais uma cidade da Síria, escolhi-a por estar a meio caminho entre Alepo e Damasco e chama-se Hama. Essas cidades com pouco turismo e com menor desenvolvimento que as outras, revelam-se, sempre, para mim uma agradável surpresa. Encontrei um pequeno hotel, mesmo no centro da cidade, chamado Riad Hotel e que parece fazer concorrência com o que está ao seu lado, o Cairo Hotel. Aqui tenho um pequeno quarto individual, com um pequeno lavatório (onde posso lavar sossegadamente a minha roupa) e a casa de banho fica fora, mas é tudo muito limpinho. Eu penso que é quando as mulheres fazem as limpezas: de facto, são muito mais eficazes do que os homens, sem dúvida alguma é o que eu tenho constatado por esse mundo do Oriente! Pago S£600,00,o que equivale a €10,00 diários, mas não inclui pequeno-almoço. Aqui à volta há imensos locais para poder fazer diferentes tipos de refeições, muito agradáveis e baratas: cerca de €1,00 a €2,00 por almoço, que é muito completo!
Eu estou fã do restaurante Ali Baba – um local despretensioso com a verdadeira comida popular: boa e barata! Encontrei duas ou três óptimas pastelarias com diferentes espécies de doces: os pastéis massa folhada quentinha, recheados de creme, queijo ou frutas são de comer e “chorar por mais”… os doces passados ou recheados de pistáchio, nem vos falo e os rolos de maçapão (pasta de amêndoa) recheado com queijo, então nem se fala! Tudo isso e muito mais, sempre fresquinhos, podem ser acompanhados de chá ou um bom café turco (aqui peço para me porem mais água, que se assemelha ao americano!), sabem muito bem! Tenho de começar a pensar na “linha”, pois eu perco-me com essas tentações! Se o “inferno” for assim!...
Bem, nem tudo é ou foi agradável aqui nessa cidade. No ano de 1982, houve um
enorme confronto entre muçulmanos sunitas radicais “os Irmãos Muçulmanos” e as tropas militares do governo. A cidade esteve sitiada durante cerca de dois meses e desse combate resultaram cerca de 20 000 a 30 000 mortos, conforme os lados. Não pensem que o radicalismo muçulmano é um problema dos países ocidentais – aqui, na Síria, cujo islamismo é a religião oficial, também não estão interessados em extremismos religiosos, já que ao longosua história tem tido grandes períodos de tolerâncias para com as diversas religiões e culturas que por aqui passaram durante milénios, mesmo muitos! Nos Museus, aqui da cidade, quer a cidade de Damasco, quer a cidade de Alego, rivalizam entre si, os títulos de urbe mais antiga, permanentemente habitada. A igreja cristão ortodoxa e a católica, assim como os judeus, embora em minoria conseguem manter as suas crenças e práticas religiosas há séculos, e ainda no período actual. Ainda no princípio do séc. XX, devido ao genocídio pernoitado pelos turcos ao povo arménio, fugiram para cá, nas cidades do norte da Síria, cerca de 2 000 000 de arménios, cuja religião maioritária é a cristã ortodoxa.
Por falar em guerras, hoje fui fazer uma excursão a dois castelos, que foram construídos na época das cruzadas. O primeiro foi a “Cidadela de Masyaf”, uma fortaleza com vestígios de ocupação, grega, romana e bizantina, remontando ao séc. VII AC, teve o seu apogeu no séc. XII, quando foi ocupada pelo ismaelitas, um grupo derivante do Islão, assim como os sunitas e xiita (guerra do Iraque e Irão, lembram-se nos anos 80 do séc.XX?). O ismaelitas têm uma enorme Mesquita e respectiva Fundação, como a Gulbenkian, para o nosso país e, actualmente, esta a financiar o restauro de Masyaf, visto fazerem parte de uma região há imensos séculos ocupadas por eles. O Aga Khan é o responsável máximo daquela religião.
Quanto ao outro castelo, o Crak des Chevaliers, o castelo branco dos Templários, foi construído entre 1099 e 1144, por um conde francês, na altura das cruzadas, tendo sido “doado” à Ordem Hospitaleira dos cavaleiros de São João Baptista (que possuem um hospital e casa de repouso em Lisboa, nas Laranjeiras). Em 1271 foi tomado pelos muçulmanos mamelucos, sendo constantemente restaurado. Actualmente é considerado como um dos castelos militares em melhores condições de conservação – de facto além de estar restaurado é de uma imponência impressionante, quer visto de perto ou de uma maior distância! Vale a pena deslocarmo-nos cerca de 130km, só para observá-lo, e através da nossa proximidade evocar a passagem da história em frente aos nossos olhos!
Esta cidade, Hama, é conhecida pelas suas noras gigantescas, construídas pelos engenheiros hidráulicos árabes, algumas delas têm cerca de 20m de diâmetro! A sua utilização era pública, distribuída pelos cidadãos proprietários de terras irrigáveis, e outras instituições, como os Khan (locais onde pernoitavam as antigas caravanas das rotas da seda e de outros materiais, que vinham ou iam para o oriente), Hammam (locais dos banhos públicos), as Mesquitas e outras – cada um pagava segunda a quantidade de captação de água. Além disso, construíram aquedutos pata o transporte da água.
Hoje, na excursão tive uma agradável surpresa, ao meu lado sentou-se uma filipina, que vive há dez anos em Manhatan, New York e, que se chama “Maria de Fátima”! eu nem queria acreditar: pedi logo para tirarmos uma foto juntas e, além de almoçarmos juntas, passamos a tarde a conversar e, ela já esteve em Portugal!
Bem, por hoje é só, amanhã vou para a cidade de Alepo, na qual conto estar cerca de uma semana ou dez dias… quero penetrar profundamente nos bazares tradicionais e que sobrevivem, não pelos turistas que a visitam, mas sim pelas apropriação dos habitantes, que investem intensivamente nas suas tradições, com imenso orgulho, além do que o famoso sabão de Alepo, como ícone, milenarmente conhecido, ajuda a fortalecer os laços societais da cidade!
Tenho lido as notícias de Portugal – que pena! ENVIEM-ME AS VOSSAS NOTÍCIAS DAS GAIVOTAS QUE POUSAM NOS BEIRAIS DAS JANELAS, DO ESTADO DO TEMPO E DO MAR, DOS VOSSOS PASSEIOS OUTONAIS E DOS PREPARATIVOS PARA A FESTA DO MAGUSTO!
Um grande abraço da viajante
Fátima